Brasil?

Quando cheguei em Barcelona, comecei a jogar futebol com um pessoal através do site Timpik.com. Era uma turma boa, a da sexta-feira à noite. Perfeito final para uma semana de trabalho, jogar uma bolinha amistosa, porém séria, com bons jogadores de todas as nacionalidades (colombianos, peruanos, franceses, marroquinos, italianos e até alguns espanhóis). No início, era um dos colombianos que criava o evento no Timpik, onde todos os jogadores se inscreviam para jogar. O problema é que ele o fazia no iPhone e não tinha tempo para estar confirmando os inscritos, resolvendo desistências de última hora, organizando os times. Isso gerava falta de jogadores e suas consequências: atrasos, perda de credibilidade da partida, falta de dinheiro para pagar a quadra, jogos ruins.

Por isso, logo que me familiarizei com os jogadores mais regulares, me ofereci para organizar as partidas no site, afinal, eu trabalhava a tarde inteira no computador. Eles aceitaram de bom grado. Então comecei. Fiz uma lista de jogadores que vinha sempre, outros que vinham de vez em quando, classifiquei por assiduidade. Quando algum se atrasava, tinha algum problema, cancelava algum jogo de última hora, eu colocava um “menos” do lado do nome. Com o tempo, foi-se criando, naturalmente, um ranking de fiabilidade, assiduidade. Eu também cuidava critérios de qualidade dos jogadores também, para manter a partida no nível corrido e competitivo que eu gosto. Qualidade, assiduidade, fiabilidade e BUEN ROLLO (algo como BOAS VIBRAÇÕES) tinham mais ou menos o mesmo peso. Amizade vinha em segundo plano, mas era natural gostar mais de jogadores que sempre vinham, jogavam direitinho e não causavam problemas. E, sempre, os jogadores chegavam com a camisa certa (escura ou clara) de seus times conforme a minha escolha (que tentava ser justo, afinal, não gosto de ganhar fácil nem de perder fácil, gosto de jogo equilibrado).

Com esses critérios observados e o corte de jogadores que estavam sempre atrasados, estragando o início das partidas, o jogo do grupo SOM LA GENT BLAUGRANA (ns) começou a pegar fama no site como um jogo bom de se jogar. Tínhamos sempre dois goleiros, nunca faltavam jogadores, começávamos na hora, o pessoal era gente fina. Assim, sempre sobrava dinheiro no final do trimestre, o que era convertido em desconto para aqueles sete que pagavam o semestre todo de uma vez, garantindo a quadra.

Ou seja, eu não fazia aquele trabalho de organização por que ganhava um salário para isso e, sim, por que me beneficiaria indiretamente, tanto quanto beneficiaria a todos os outros, que teriam um bom jogo para relaxar na sexta à noite e ainda pagariam menos ao final do mês.

brasil

E é assim que deveria funcionar a política, na minha opinião. Os políticos deveriam ajudar a organizar o país por que podem, por que têm condições e por que querem que o país funcione bem para que, no final da semana, possam jogar um jogo gostoso, divertido, justo para todos, não por que vão ganhar um salário milionário. Os bons salários deveriam ser pagos aos bons professores e bons médicos, primeiramente. E, quem sabe, eles poderia ser os políticos, voluntários. Ou, quem sabe, poderíamos ser todos senadores, votando diretamente em leis através da internet. Afinal, no Brasil, apesar da aparente falta de dinheiro para coisas como água potável e estradas, tem um dos mais eficientes sistemas de eleições, tudo eletrônico, funcionando perfeitamente. Sem falar no pagamento de impostos, que hoje em dia pode ser feito sem maiores complicações pela internet. Não vejo por que um sistema de votação via internet, com número de eleitor, seria menos eficiente que tudo ser votado uns poucos mancomunados.

É muita grana que o governo tem para fazer desse país um dos melhores do mundo, como deveria ser. Não temos tornados, não temos terremotos, não temos tsunamis, apenas uma enchente aqui e ali, muitas vezes causada pelo próprio ser humano, indiretamente. Recursos naturais não faltam, por outro lado. E gente qualificada, mesmo com o sistema educacional debilitado, SOBRA. Tem muito brasileiro qualificado indo trabalhar no exterior, para ganhar o salário que merece, depois de ralar tanto para estudar, seja para ter faculdade pública ou pagar a particular.

Algumas pessoas no Facebook estavam difundindo a ideia de que políticos deveriam ser obrigados a inscrever seus filhos em escolas públicas e tratarem da sua saúde no SUS. Acho interessante. Não funcionaria, na prática, mas a ideia deveria ser essa: que todos se importassem por que afetaria diretamente suas vidas.

Na boa, o que falta para o Brasil é acabar com essa cara de pau, esse circo que é a política brasileira, com todos os gastos exorbitantes para voar o pessoal para Brasília, pessoal que “trabalha” de terça a quinta, todo o nepotismo indireto dos secretários, dos cargos de confiança, dos garçons ganhando 15 mil reais por mês, da funcionária pública levando o cachorrinho para passear em pleno expediente, do dinheiro repassado para a empreiteira do marido da filha do governador, do pastor racista, homofóbico e misoginista ser nomeado Presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias (algo como o Maradona ser nomeado Presidente da Comissão de Antidoping da Copa do Mundo). O pessoal paga imposto que não termina mais para ter SUS, escola pública e polícia. Acaba pagando outra vez com Unimed, colégio particular caríssimo e segurança particular. E aquele estado de terror constante do brasileiro, sempre olhando em volta, girando o pescoço como uma coruja, quando vai estacionar o carro, esperando que algum bandido saia de dentro da lata de lixo, da copa de uma árvore. Se tu tem um carro, estatisticamente, mais cedo ou mais tarde, tu vai ser assaltado. Não tem saída. É pagar o seguro e entregar as chaves, quando pedirem.

É tanta coisa inacreditável que chega a banalizar, o povo perde o poder de indignação diante de tanta bizarrice. E eu gostei de ver, apesar de nem estar morando no país, o povo indo à luta, saindo às ruas. Não sei exatamente como isso vai acontecer, na prática, mas a mudança urge. E, se temos que aproveitar que o foco está todo no Brasil por causa da Copa e das Olimpíadas, para exibir essa face hedionda do Brasil, que assim seja. E esse será o grande legado da Copa, que ninguém esperava. Tudo bem, já levaram bilhões de reais na construção dos estádios e, infraestrutura, que é bom e é o que realmente conta, deixaram pra lá. Mas essa mudança de mentalidade, se ocorrer de fato, vai ser muito benéfica. Mas não pode parar por aqui, tem que atingir o X da questão, que é a corrupção e a sacanagem política, a cara de pau. Eu nunca fui muito a favor dessa Copa, na real me interessava por ela tanto quanto se tivesse acontecendo em outro país. Mas agora já tô achando bom, pelas consequências que vemos neste junho de 2013. Que não pare por aqui, que se organize e realmente mude o país. Não vejo a hora de te encontrar de cara nova, Brasil.

Bom ressaltar: não sou contra nem a favor do PT. Sou a favor das pessoas honestas. Eu mesmo votei no Lula, depois lamentei que ele tenha entrado no jogo sujo também, mesmo tendo feito coisas boas.

Eu sei que é difícil comparar um país de dimensões continentais como o Brasil com o Uruguai, que é menor que o Rio Grande do Sul, mas olhem um pouquinho para este senhor, que em pouco tempo no poder já agilizou ideias que caem de maduro, como a rejeição de mimos do governo por parte dos políticos, a legalização e o consequente controle das drogas e do aborto (dois temas da sociedade que são apenas varridos para baixo do tapete enquanto são ignorados e tidos como ilegais) e o reconhecimento do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Palmas pra ele.

PS: É claro que sou contra depredação, vandalismo, violência. Não acho bonito, não faria, não acho que seja o caminho, só desvia o foco e dá margem para manchetes diversionistas. Quem faz isso ou é burro demais ou está do lado dos sem-vergonhas.

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Ligamentos

Depois de vinte anos jogando futebol pelo menos uma vez por semana (em Barcelona pelo menos sete vezes por mês), consegui me machucar o suficiente para não pode caminhar, muito menos jogar futebol. Na semana anterior à lesão, fiz exercícios como nunca. A irmã, duas primas e uma amiga da Chi estavam ali em casa e eu acabei indo ficar na casa do Francisco por três, já que ele estava viajando e também precisava de alguém para cuidar da Salsinha (sua gata). Como estava meio descompromissado com a patroa, acabei jogando futebol quatro vezes na semana, sendo que em dois desses dias andei de bicicleta por mais de 20km para ir e voltar dos campos de futebol. Enfim, estava em chamas, nunca estive melhor fisicamente.

Na terça-feira dessa semana pegada, porém, fui jogar futebol em um campo de parquê perfeito, lá em cima do Monte Tibidabo. Além de ser grátis, jogaram alguns caras bem bons, foi um futebol mais legal do que o normal. O único porém foi que eu tomei uma pancada na canela de um cara do meu próprio time, voei no ar e caí com todo peso sobre o lado direito do meu corpo. Fiquei uma semana com nádega, músculos da perna e cotovelo doloridos. Mas isso não foi problema, joguei futebol igual nos dias seguintes. O ruim mesmo foi uma semana depois, no mesmo lugar, com os mesmos caras.

Já passava de uma hora e meia de jogo quando roubei a bola de um cara que até é bem bom jogador. Ele era último homem e tentou me driblar, eu roubei a bola e ia ficar na cara do gol. Rapidamente, o cara não admitiu a perda de bola que seria crucial para uma possível reação no nosso time, que vinha perdendo por dois gols de diferença, e me enfiou o pé entre as pernas e a bola, fazendo com que eu torcesse o pé esquerdo pra dentro, colocando todo o peso do corpo naquele tornozelo virado. Um daqueles momentos que acontecem muito rápido, mas que acontecem em câmera lenta dentro da nossa cabeça: o pé virando, os ligamentos esticando até o máximo, o barulho dos ossos estalando. Como ainda estava quente, não senti muita dor, até continuei jogando um pouco, de goleiro. Mas não deu cinco minutos e um par de passes leves para eu me dar conta de que a coisa era mais séria e de que eu teria que, afinal, parar de jogar.

Abandonei a quadra, andei ainda um quilômetro lomba abaixo, mancando, até chegar na minha bicicleta e pedalei com uma perna só, a outra só apoiando, 9,5 km até minha casa. Cheguei em casa, fiz gelo, tomei banho, um dorflex e fui dormir.

Quando acordei no dia seguinte, não conseguia tocar o pé no chão, o inchaço finalmente tinha tomado conta. Fui fazer aquele xixi matinal, sentei no vaso e de repente me de baixou a pressão, deu teto preto e eu caí pro lado, no banheiro. Bati a cabeça no chão e tive convulsões. O engraçado é que não fiquei totalmente inconsciente, sentia que estava me debatendo, ouvia o barulho, mas não conseguia me controlar. Não durou muito, consegui levantar e fazer o tal xixi. Entrei no box e fiquei tomando água gelada na cabeça até sentir-me melhor. Pronto.

Peguei um ônibus, fui até o médico em um pé só e no fim o diagnóstico não era tão ruim assim: uns quatro dias até conseguir caminhar de novo. Exatamente quantos dias faltavam para começarem minhas férias. Perdi três dias de trabalho. Depois de bastante gelo, pé pra cima, anti-inflamatório pesado, repouso e duas temporadas de séries de TV assistidas, vi que a estimativa da médica, bastante jovem, foi perfeita. Acabei nem levando as muletas para a viagem.

Sobre as séries de TV:

1.Recomendo MUITO o seriado Louie, escrito e dirigido pelo comediante mais conhecido pelo seu número de stand up Louis CK. Genial. Vale bastante a pena ver cada um dos 13 episódios que abordam algo um pouco autobiográfico da vida de um comediante de 42 anos, divorciado, com duas filhas. Torrent pra primeira temporada aqui.

2.Parks & Recreation – Esperava mais desse programa. Tem dois personagens bons: o Aziz Ansari, apenas por ser ele, e o cara que tem as duas pernas quebradas.

Vale?

Levei os dois paulistanos Rodrigo Levino e Marcelo Costa para comer no Kiosco ao fim do show do Mercury Rev. Deliciados com a qualidade do hambúrguer (tudo é feito artesanalmente, desde o pão até o ketchup agridoce) e os preços módicos praticados na casa (5 pila pelo básico, quase tão barato quanto um kebab qualquer), eles começaram a me falar sobre os preços praticados hoje em dia na capital paulista.

É um assunto que me deixa sempre muito apavorado, o aumento vertiginoso dos preços no Brasil. De uns anos pra cá, com essa história de SÉTIMA ECONOMIA DO MUNDO e etc, todo mundo acha que o país virou um lugar para magnatas. Que todo mundo tem grana pra caralho. Ok, tem uma galera que tem grana pra caralho, mas tem uma galera que não tem nada. Tem alguma coisa muito errada aí e logo isso vai estourar em algum lado.

Quando um lugar cobra 28 reais pelo hambúrguer básico, temos problemas. E o erro não está nem no preço e sim em quem paga. NUNCA pagaria esse valor por um hambúrguer (especialmente desde que eu faço um hambúrguer delicioso com minhas próprias mãos).

Se alguém vende camisas PÓLO que nem “de marca” são por 200 reais, alguém deve comprar. Não entendo como uma loja dessas segue aberta. Afinal, uma camisa pólo NUNCA vai ser mais do que uma camisa pólo. De camisa pólo não passa, eu garanto. Nenhuma camisa pólo deveria custa mais de 30 reais.

NOVENTA reais o espeto corrido? Mais 10%? Mais bebida? Mínimo 105 reais nessa conta, por pessoa. Quem paga por isso? Por favor.

E me dizem que ingressos para o show do Bob Dylan em SP chegavam a custar mais de 1100 reais. MIL E CEM REAIS. Porra, tem um show do ERIC CLAPTON rolando HOJE no Royal Albert Hall, em Londres e custa entre 70 e 90 libras. E o problema é justamente: se podem cobrar 1100 reais é por que algum idiota paga.

Outro exemplo gritante foi o caso dos jogos de Peñarol x Inter em Montevideo. Aqui a lista de preços de ingressos:

A continuación les detallamos el valor de las entradas para el encuentro del jueves:
TRIBUNA ÁMSTERDAM- $ 190 (socios $130)
TRIBUNA COLOMBES- $ 150 (socios $100)
TRIBUNA OLÍMPICA- $ 290 (socios $200)
TRIBUNA AMÉRICA- $ 350 (socios $220)
TRIBUNA AMÉRICA (sector de Inter)- $ 1000

Ou seja, torcedor colorado que quisesse acompanhar o Inter no Uruguay, além da viagem (desconsiderando gaúchos moradores daí) teria que morrer entre três e cinco vezes mais grana do que os carboneros. Um absurdo, um disparate flagrante, claramente levando em conta o quão PATOS são os brasileiros, os novos-ricos da América.

Acho que a chave dessa situação não é apenas que muita gente no Brasil realmente tem grana para gastar, mas que há uma grande parcela da classe média que não tem tanta grana assim e adora ostentar, dizer que gastou não sei quanto em algo que na verdade não custa tanto assim. É claro que não quero aqui pregar pela baratização de tudo, pelo Made In China geral. Afinal, há gastos em tudo, isso tem que ser coberto de alguma maneira. Mas não vão me convencer de que essas coisas que eu listei realmente valem o preço cobrado no Brasil. Há preços honestos e há preços abusivos. Brasileiro falha em notar isso. E ainda tem a galera que não tem grana MESMO e compra a versão pirata de um Nike Shox. Ou pior: poupa vários meses de salário para poder comprar um verdadeiro (que invariavelmente vai ser roubado na rua, qualquer dia desses).

Na questão das roupas, posso dar o testemunho das pessoas com quem convivi em Sydney e em Barcelona: todo mundo compra seus básicos (camisetas, casacos, jeans) nas lojas baratas, como Cotton On, JayJay´s, H&M, Zara, Celio, Lefties, etc. São tipo as Renner e C&A daqui. Porém bem mais baratas. Hoje em dia, no diabo do Brasil, até essas lojas vêm subindo os preços, sistematicamente. O pessoal vai pagando, eles vão subindo.

E o pior: lojas como Zara, que vendem em Barcelona uma camiseta em oferta por 3 euros, aposto que empacotam o resto de tudo que não vendem e mandam pra loja do Iguatemi, em Porto Alegre. Chegando ali, colocam a mesma camiseta a 30 reais e vende como água.

Sem contar o estupro que são os impostos no Brasil, principalmente no que toca eletrônicos. Televisores, videogames, a diferença de preço é exorbitante e grande parte da culpa é dos impostos. E depois não sabem por que a pirataria é tão profissional no Brasil e por que a Sony nunca fez propaganda de Playstation 3 no país. O mercado é todo por fora. É um imposto muitas vezes infrutífero, por que não recolhe nada, muito pouca gente compra jogos e consoles originais. Meu irmão acaba de comprar a mesma TV que eu comprei aqui por 300 euros. Em Porto Alegre, na Multisom, sai por 1200 reais, chorando. Preço da etiqueta: R$1400,00.

E a história de que algumas aréas de São Paulo ficaram mais caras do que Manhattan? Mesmo com o trânsito impraticável, qualidade de vida frustrante e casos tipo esse. Enfim, apenas colocando em palavras desordenadas algo que eu vinha discutindo há um tempo com alguns amigos.

Bici?

Cheguei de uma longa e gostosa feijoada na casa de amigos e me deparei com todos os posts, vídeos e notícias sobre o absurdo que ocorreu na José do Patrocínio nesse fim de semana. Fiquei chocado demais. Provavelmente a coisa mais bárbara que aconteceu nas últimas décadas em Porto Alegre. É muito difícil de entender a motivação de um sujeito desses. Na boa, mas exagerando, é mais fácil entender a motivação de um assassino em série, de um estuprador, de um terrorista em série do que entender esse vídeo aqui. Cadeia é o mínimo para um sujeito desses.

Eu, como fã da bicicleta, apóio completamente a utilização das duas rodas como meio de transporte diário. Em Sydney, usava a bicicleta todos os dias para ir trabalhar e não tinha como ser mais rápido ou agradável a viagem até o escritório. Pedalando, vento na cara, ouvindo música. Em Barcelona, com o sistema de Bicing, a vida de ciclista tomou uma dimensão ainda maior. Uso a bicicleta para tudo, conto com ela.

-Uma coisa que impressiona em Barcelona, uma cidade relativamente pequena, bastante populosa, é que encontraram lugar para ciclovias. Posso ir a qualquer lugar da parte central da cidade sem precisar andar entre carros.

-Minha viagem do trabalho pra casa dura uns 12 minutos. Outro dia fiz o mesmo trajeto com um carro alugado para um trabalho e demorei 23.

-Passei 10 dias sem poder usar o sistema (por ter perdido meu cartão) e quase fiquei deprimido.

-Desde que me registrei no sistema, há 317 dias, usei a bicicletinha 633 vezes, totalizando 135 horas de pedaladas (quase seis dias em cima da bicicleta nos últimos 10 meses).

-30% das bicicletas têm probleminhas, às vezes é difícil achar onde estacionar, às vezes acordo de manhã e não há bicicletas na minha estação, ainda assim escolho o Bicing mil vezes antes de pegar ônibus ou metrô.

A liberdade e a qualidade de vida que a bicicleta permite é inigualável. Meus sinceros sentimentos àqueles que sofreram esse trauma, que sobreviveram a essa barbárie sem sentido. Deixo aqui o link do blog do movimento Massa Crítica, para que os interessados possam aderir e apoiar. Este post contém algumas idéias interessantes.

E quem sabe um dia alguém pode sair numa foto assim, em um Porto Alegre de verdade:

Adendo:

Falando com meu parceiro Sérgio Kalil, grande músico, produtor, um dos responsáveis por esse vídeo e um dos ativistas do Massa Crítica (além de ser um dos caras mais bondosos que eu conheço), desenvolvemos um pouco mais o assunto.

Acho que o que aconteceu transcende a discussão sobre bicicletas, sobre trânsito. O que esse cara fez tá totalmente fora de tom, totalmente desproporcional. Se esse cara que atropelou todo mundo realmente não curte bicicletas (sabe-se lá por que, de repente ele é dono de um posto de gasolina), ele deu o empurrão que faltava pra questão ser mais profundamente discutida, ganhar os jornais, a televisão, além da internet. Mesmo que tenha sido às custas de sangue dos ciclistas (por sorte ninguém morreu). Sérgio me diz que, em outros dias menos chuvosos, algumas crianças participam da manifestação.

Quem sabe da próxima vez, se esse cara não for mandado pra cadeia, ele vai ter que atropelar 2.000 e não 20.

Agora surgiu o vídeo mais chocante do acontecimento. Cuidado, imagens um pouco fortes. Se essa cena acontecesse em um filme, algumas pessoas diriam é não é plausível, afinal, quem faria isso?

Alguma repercussão internacional aqui e aqui. E aqui há um resumo de notícias pela itnernet.

Dentes guardados

2010 foi o ano em que eu, finalmente, fiquei velho. Não tem como escapar. Sintomas:

-Algum cabelo branco, barba branca.

-Depois de jogar futebol por mais de uma hora sem parar, meu joelho esquerdo dói, mal consigo subir as escadas do meu prédio. Um dia depois, passa.

-Sofro de lipomatose múltipla no tórax e nos braços, conto mais de quarenta pequenas (e algumas grandes) bolinhas de gordura no meu corpo. Estou consultando com médicos de Barcelona para ver se alguém me bota pra dormir e retira a maioria delas. Acho que perderei uns dois quilos nesse procedimento.

-Quebrei um dente. Da frente, centroavante. Não sei como aconteceu, mas há uma semana senti com a língua uma parte meio afiada no meu dente. Sempre esquecia de olhar no espelho. Ontem, vi. Perdi uma lasquinha.

Quando começar a vigorar meu plano de saúde através da empresa, passarei a frequentar o médico SEMANALMENTE.

Em outros assuntos, minha mãe se foi para o aeroporto no dia 30 de dezembro e foi um pouco triste. Com mãe, a coisa é complicada, parece que não aproveitei o suficiente, que não dei tchau o suficiente, sempre se quer mais. Mas é isso aí, sei que ela foi aproveitar o verão e está bem na nossa casinha em Imbé. O verão por lá sempre é proveitoso. Te amo, mãe!

Enfim, é isso aí. Terminou essa seqüência enorme de posts de Marrocos/virada de ano, voltamos ao ritmo normal.

Even thieves, they couldn’t lie

Tenho testemunhado pequenos roubos a turistas diariamente aqui em Barcelona. Hoje foi um casal da Estônia, levaram seu laptop. A real é que as leis da Espanha são muito brandas com os ladrões, é quase uma parceria.

Aparentemente, qualquer roubo abaixo de 400 euros não dá cadeia. Eles são registrados, pagam uma multa e são liberados. Ou seja: roubar pode ser uma profissão bem interessante para quem mora aqui. Tem seus riscos, mas a quantidade de turistas desligados ajuda bastante no empreendimento. Na verdade, eles só podem encarcerar o indivíduo depois de pegá-los quatro vezes no mesmo ano. Virando o ano, a conta é zerada e pode-se começar a roubar de novo. Que beleza, não? É como multas na carteira de motorista.

Ou seja: se tu for um ladrão cuidadoso, se tu alvejar apenas velhinhas indefesas, se tu tiver um conhecimento interessante dos atalhos de Raval, Born e arredores da Rambla, tu pode te criar bem aqui nessa cidade.

Aí um cara me perguntou: e no teu país, como funciona? Bom, no MEU PAÍS, o furo é BEM mais embaixo. O negócio lá é sequestro relâmpago, assalto a mão armada, roubo a banco, corrupção desenfreada, formação de quadrilha. Ladroagem profissional, poucos saem de casa pra roubar pouquinho. Brasil não é lugar pra ladrão chinelão, esse se dá mal logo, toma porrada da polícia, vai pra cadeia com estuprador, assassino e sai de lá ainda pior. Nenhum dos dois tá certo, eu acho.

Relax, take your time

Em agosto, aparentemente, toda Espanha para e sai de férias. Por isso, tô meio ralado, tenho que esperar agora chegar setembro pra poder fazer o que eu planejava fazer: voltar a procurar trabalho até encontrar, depois de Copa do Mundo, de viagens, de mudança, etc. Paciência, falei com dois fotógrafos por telefone hoje e eles confirmaram: nem adianta mandar email ou ligar, ninguém vai responder. Afe. Bom, bora aproveitar o verão um pouquinho mais do que o previsto.